quinta-feira, setembro 16, 2004


"Beyond the Pale" and back



Nestes dias de ausência perdi:

1.1. O aniversário do Barnabé – Parabéns Barnabé, não pelo ano mas pela qualidade dos dias;
1.2. O apelo dos livros para Timor, divulgado pelo Xavier do Saúde, SA – um exemplo de desinteressada generosidade lusitana;
1.3. Uma imensidão de posts que vou tentar recuperar.

Nestes dias de quase exílio ganhei:

2.1. Um divertido post da Prima;
2.2. Um empréstimo de acentos alugados pelo João;
2.3. Uma generosa oferta de 4 acentos novos e de um hífen usado pelo Pirata do Bloff;
2.4. Algumas mensagens, por outras vias (cujo anonimato respeitarei) tendo uma delas sido escrita em gaélico (de que não sei tanto nem tão pouco).

A todos a minha imensa gratidão pelos momentos de riso feliz e pelos acentos, que guardei para Dublin e não cheguei a usar.

Nestes dias de viagem empatei com o tempo e com a impermanência, num jogo a três, desleal e rápido.

Fui à Irlanda com o intuito de reencontrar-me nela, nos verdes que embriagam o olhar, nos lagos de silêncio com barcos em terra, no ocaso em que o sol beija as árvores que se inclinam (empurradas pelo vento?) para prolongar esse afago, no fastidioso engarrafamento de carneiros pela estrada ladeada de amoras, no sorriso desarmante de um qualquer estranho no meio de nada, nas canções que todos bebem e todos cantam – ombro (estranho) com ombro (amigo) – no pub local, nas ruas sombrias de Temple Bar que à noite se vestem de brilhantes gargalhadas e, ao longe, um "fiddle" que nos acaricia os sentidos.


Claro, não me reencontrei coisa nenhuma. Tretas! Já de regresso, à porta do aeroporto, parei para um curtíssimo cigarro e o vento trouxe até mim uma carta maltratada:

My Dear Rosaleen,

Achei-te mais escondida por trás das estradas que rasgaste em vias rápidas, mais triste nos lagos laminados pelos barcos a motor, mais envelhecida nas rugas que a preocupação de sobrevivência desenhou nos teus filhos, mais cansada de lutar contra os novos invasores a que, agora, tens que chamar imigrantes. Quantos? Cerca de um milhão?
“ere you can fade, ere you can die…”

Mas isso não vai acontecer.
Olha para esse dono do pequeno restaurante na rua paralela ao cais de Dingle: fez-lhe obras, mudou-lhe o nome para francês, vestiu colete, cobra €50 pelo mesmo peixe fresquíssimo (agora perdido num prato enorme) e continua a servir aos conhecidos o "potcheen" num copo de água com limão e um "twist" de sorriso cúmplice.
Olha para esse outro teu filho que se esgueira para o pátio das traseiras do pub – onde se fuma e a festa existe – apontando (com o queixo trocista) para os turistas compostos com olhos de "how lovely" em frente a uma Guiness mal tirada pelo asiático que, atrás do balcão, não sabe o que é uma "pint".
"…A mo gradh", olha para eles (eles olham por ti) e voltarás a fazer a metamorfose, mais bela do que nunca.
"I know nothing stays the same…"


Não tive pachorra para continuar a ler o piroso tresloucado que misturava o Mangan com a Carly Simon e o O’Rahilly ("one too many" no mínimo), deitei fora o papel, apaguei o cigarro…avião e aqui estou.

Cá para mim, a Irlanda foi tão boa aluna – mas tão boa aluna – que rebentou com a escala, partiu-se-lhe o quadro de honra em cima e está com a consequente dor de cabeça.

Ah! Já me ia esquecendo, tenho um recado:

"You tell that Mr Paul Doors of yours that his speech about the Irish miracle is way beyond the Pale!"